Um papo com ROSS MAEDA | Enzo Racing EUA

Se o assunto é suspensão, então ninguém melhor que o norte-americano, Ross Maeda, engenheiro da marca mundial Kayaba e proprietário da empresa Enzo Racing EUA, Ross é sem dúvidas um dos melhores e mais respeitados preparadores de suspensões para motos de competição no mundo. Nós aproveitamos a visita do nosso parceiro Serginho Suspension que representa os trabalhos da Enzo no Brasil, na casa de Ross, para nos auxiliar nessa entrevista exclusiva ao Show Radical, confiram as palavras do cara da suspensão!

– Olá Ross, eu gostaria que se apresentasse ao público Brasileiro e falasse um pouco sobre você.

SR: Como e quando você realmente começou a viver para motocicleta?
Ross: Eu comecei a pilotar motos off road quando eu tinha 11 anos de idade (1966), meu pai, meu irmão mais velho e eu íamos caçar no deserto, quando vimos algumas pessoas andando de motos off-road. Havia um lugar onde estavam alugando elas. E meu pai então alugou uma para o meu irmão mais velho andar. Eu apenas olhei mas na semana seguinte meu pai veio com duas motos e nos deu para andar. Meu pai andava de motos street quando era mais novo então ele sabia como andar. Ele costumava nos levar para o deserto todo final de semana depois disso. Depois de dois anos mais ou menos andando no deserto, eu entrei na minha primeira corrida, corrida no deserto, um pouco depois, nós conhecemos as corridas de motocross de Saddleback Park e começamos a participar. Eu não queria fazer mais nada a não ser andar na minha moto de cross daí pra frente.

SR: Quando você decidiu parar de competir para se dedicar exclusivamente a suspensão?
Ross: Eu estava correndo no sul da Califórnia em um local pró, para a idade de 15 anos. Então eu consegui um trabalho como piloto de teste para KYB quando eu tinha 21 anos. Em 1976. Eu continuei correndo regularmente até os 35, depois disso eu corria ocasionalmente. Eu aprendi como ser um técnico de suspensão enquanto eu apenas estava andando e dava suporte nas corridas também como piloto de testes de produtos para todas as fábricas japonesas da KYB. Eu sempre andei 2 a 3 vezes por semana e corria apenas nos eventos que eu gostava até me machucar com 54 anos de idade.

SR: Na sua família você é o único que vive e trabalha com Motocross?
Ross: Não, meu irmão mais velho correu até ele quebrar sua perna quando tinha 17 anos, daí então ele apenas corria ocasionalmente. Meu irmão mais novo o Donny começou a trabalhar como jornalista no Cycle News. Então começou no Motocross Transworld (grande site americano) e ainda é muito ativo no motocross.

SR: Você já trabalhou com grandes pilotos de ponta, pode nos contar um pouco?
Ross: Quando eu comecei a trabalhar na KYB eu tinha assinado com o time Suzuki nos Estados Unidos. Eu trabalhei com Kent Howerton, Mark Barnett.  Barnett se tornou o piloto principal na sua época. Um especialista em 125cc e então eu percebi que ele era o melhor corredor, na melhor moto. Trabalhar com ele era fácil, porque ele ganhava tão fácil que facilitava muito meu trabalho. As pessoas costumavam dizer que eu estava fazendo um ótimo trabalho como técnico de suspensão, mas eu dizia que Barnett usava o mesmo equipamento de Holland (seu companheiro de time) e Barnett sempre era o primeiro e Holland o 12º. Então era o piloto que estava fazendo um grande trabalho e não eu. Eu também trabalhei com Roger Decoster quando ele corria nos EUA e ele era meu ídolo. Então isso era realmente fantástico. Trabalhar com os pilotos top’s me ensinou muito, porque me permitiu ter um “feedback” para tudo que eu tentasse. Anos a fio eu só trabalhei com os grandes nomes dos EUA com a exceção de David Bailey eu nunca trabalhei com ele porque o time Honda usava Showa, quando ele estava no ápice de sua carreira.

SR: Havia alguém em especial que era o seu piloto preferido?
Ross: Os pilotos mais especiais que eu já trabalhei, foram realmente os grandes nomes da história, como: Bob Hannah, Ricky Carmicheal, Jeremy McGrath, Chad Reed, Ryan Villopoto e James Stewart, todos eram diferentes mas todos tinham um “norte” para serem os melhores e as suas personalidades eram diferentes da maioria das pessoas. Alguns eram engraçados, outros sérios, mas todos eles tinham uma confiança especial em pilotar. Os melhores pilotos de teste no qual eu trabalhei foram Decoster, Erik Kehoe, Mike Fisher, Ron Lechien, Ryan Villopoto, eles sabiam o que eles queriam e me ajudavam a conseguir o que eles queriam, isso é muito importante para um preparador profissional.

SR: Hoje em dia você cita algum jovem piloto que está para ser “o cara” no MX Americano?
Ross: Anos a dentro, eu vi os tops! Garotos especiais vindo e era fácil dizer que seriam os melhores. Mas eu também vi muitos garotos bons nunca fazendo o passo final para ser o melhor. Quando ele era mais novo eu sempre achei que o Ryan Hughes seria o melhor mas ele nunca conseguiu ser o melhor. Atualmente eu acho que os pilotos top’s serão talvez Cooper Webb e Jeremy Martin, mas só os pódios irão dizer!

SR: A Kayaba foi a pioneira na invenção das suspensões a ar, qual a sua influência como engenheiro nesse projeto?
Ross: Eu me machuquei antes da KYB começar a desenvolver os garfos de ar dianteiro, eu não fiz nenhum teste andando no sistema. E eu ainda estava recuperando quando ele foi conceituado. Eu tive experiência com garfo de ar nos anos 70 mas esse desenvolvimento foi parado. Mas na época que eu trabalha com a Kayaba PSF Design isso já estava desenvolvido, eu apenas trabalhei na fábrica ajustando os detalhes.

SR: Muitos pilotos ainda tem receio em usar as suspensões a ar e preferem andar com as tradicionais, como você vê este caso?
Ross: Pessoalmente eu acredito que sistemas de mola e ar são bons sistemas, mas elas provavelmente não pertencem aos fabricantes de motos, porque elas exigem manutenção para trabalhar bem e o cliente médio não quer fazer essa manutenção. Pilotos devem aprender como trabalhar com garfos de ar, isso não é difícil. Mas a maioria apenas quer andar, sem se preocupar em cuidar corretamente. Eu não os culpo porque pilotos não são mecânicos natos. Quando a KYB decidiu desenvolver garfos de ar para produção em série, eu alertei eles sobre os clientes não darem a manutenção necessária e eles me diziam que os pilotos deveriam checar a pressão do ar nos pneus antes de andar, mas eu disse a eles que nem isso eles fazem, pilotos estão acostumados a colocar apenas gasolina nas suas motos e andar!

SR:  A Suspensão a AR é o melhor sistema na atualidade?
Ross: Suspensões a ar tinham um toque especial para isso e os pilotos preferem também. Alguns preferem mesmo as tradicionais à molas, ambas podem funcionar bem e ambas tem vantagem uma sobre a outra. Eu prefiro trabalhar com garfos de ar mas eu não digo que são os melhores porque dependem de cada piloto e cada estilo e pilotagem!


Suspensões Kayaba PSF System, modelo que teve participação de Ross no acerto dos detalhes.

SR: No seu ponto de vista, em uma escala percentual, quantos por cento uma suspensão bem ajustada pode favorecer a vitória de um piloto?
Ross: Na minha opinião quando um corredor tem a suspensão ajustada para ele, ele pode andar no topo do potencial. Mas o motocross é um esporte no qual o piloto é o fator mais importante então as vezes um piloto pode ganhar de outro com material inferior e isso faz do motocross um esporte especial, mas no meu trabalho o equipamento é a única coisa que você pode controlar, eu não posso controlar a habilidade e o esforço de um piloto, então suspensões bem acertadas são mais importantes que potência.

SR: Grande Ross Maeda, foi uma honra poder falar com você, admiramos seu trabalho, através do nosso parceiro no site, Serginho Suspension e como todos fãs de Motocross, sabemos da sua grande história e foi realmente uma honra poder divulgar um pedacinho dela para os pilotos Brasileiros, para encerrar te dou esse espaço para falar com nosso público.
Ross: Eu sou Americano e cresci na indústria do Motocross nos EUA. Mas eu visitei o Brasil nos anos 90 e recentemente em 2000 muitas vezes. A diferença é que o motocross dos EUA é mais profissional que no Brasil, mas também há mais recursos aqui, o motocross no Brasil pode melhorar e os corredores podem se tornar mais fortes no cenário mundial também. Mas eles devem estudar o que acontece nos EUA e na Europa e trabalhar igual, eu amo o Brasil e os Brasileiros, obrigado a vocês do site pelo espaço e contém sempre conosco!


Essa entrevista foi realizada com intermédio do preparador Brasileiro, Serginho Mello, da Serginho Suspension, nas primeiras semanas de janeiro desse ano, quando Serginho foi para os EUA aprimorar seus conhecimentos diretamente com Ross Maeda na Enzo Racing.

Texto: Tiago Lopes – Show Radical
Traduções: Fernando Espanha
Fotos: Divulgação – Arquivo Pessoal